Ação desastrosa de Doria na Crocalândia faz Secretária de gestão pedir demissão


Uma demolição desastrosa feriu 3 pessoas na Cracolândia e poderia ter sido muito pior.

desastre

JOELMIR TAVARES

DA COLUNA MÔNICA BERGAMO

Patrícia Bezerra, secretária da gestão João Doria (PSDB) que pediu para sair da pasta de Direitos Humanos três dias após a intervenção na cracolândia, diz que sua situação no cargo “chegou ao limite” por causa da ação.

Ela, que é psicóloga e também filiada ao PSDB, participava das discussões para a implementação do Redenção, programa da prefeitura para a região que acabou tendo o início antecipado por causa da entrada da PM na área, no dia 21.

Patrícia diz que no meio da fala que veio a público horas antes de seu pedido de demissão, por meio de um vídeo em que chamava de “desastrosa” a operação, sentiu que sua saída seria uma questão de tempo. “Foi um desabafo.”

Integrante da igreja evangélica Comunidade da Graça, Patrícia é vereadora e está reassumindo a cadeira na Câmara. Ela diz que continua na base de apoio do governo, mas com liberdade para críticas.

Na carta de despedida, a sra. relatou dificuldades que enfrentava havia algum tempo. Quais eram elas?

Falta de interlocução direta com o prefeito, falta de compreensão do papel da secretaria e do tema. Ele tem um senso de urgência que é equivocado. No caso do Redenção, ao longo de quatro anos se faria um trabalho gradual. A pressa que ele tem não respeita essa cronologia. Quanto tempo se levou para se instalar um problema como a cracolândia? É sim num médio e longo prazo que vai se mi-ni-mi-zar [dividindo as sílabas]. Redução de danos é fato, você tem que lidar com isso.

Era um desgaste acumulado?

Você vai perdendo a perspectiva. Fiz planos, levei pessoas gabaritadas, pensando em deixar um legado. Se você vê que não existe o mesmo entusiasmo, sinergia, compreensão, vai dando um sentimento de frustração. Houve o decreto de zeladoria [em janeiro, quando a prefeitura publicou decreto retirando, sem consultar a secretária, o veto à remoção de cobertores de moradores de rua]. Falei: tem que rever. Não aconteceu nada. Na questão da ponte [ela era contra dar o nome do ex-senador Romeu Tuma à ponte das Bandeiras], falei que era uma aberração. Está no relatório da Comissão da Verdade o nome do cara como quem chancelou torturas no Dops.

Como era a relação com Doria?

Não vou falar que foi ruim. Mas também não foi tão boa quanto poderia ter sido. Ele aparenta ser uma pessoa muito aberta, pronta ao diálogo, mas ele não é tão aberto assim. Aprendi a admirar muitas coisas no prefeito. Ele jamais vai criticar alguém pessoalmente, faz questão de ser solícito, agradável, demonstrar interesse.

Por outro lado, ele está muito afoito. Entendo, porque ele está devedor da campanha que fez e do número expressivo [de votos] que ele teve. Mas a cidade tem prazos, inúmeros caminhos burocráticos, que são letárgicos, sim, mas são processos que, se a gente atropela, passa por cima, dá margem para corrupção.

Acredito que ele está num momento difícil porque está se deparando com esse freio. O sentimento dele de querer fazer é verdadeiro, mas ele não consegue lidar com essa impaciência de estar hoje num espaço sobre o qual ele não tem controle, que é o dos ritos da administração pública.

A crise na cracolândia foi a gota d’água para sua saída?

Sim. Chegou ao limite. Se eu continuasse no governo eu atrapalharia muito [os planos de Doria]. E ele também me atrapalharia. Ele ia me frustrar cada vez mais, porque eu ia querer fazer as coisas dentro das minhas crenças e, pela falta de compreensão, ele não ia permitir que isso acontecesse.

Quando soube da operação?

Na sexta-feira à noite [dois dias antes] o secretário Julio Semeghini me chamou para uma reunião com outros secretários. Quando soube, eu devo ter ficado pálida. Falei que minha preocupação maior era ser um Carandiru dois, um banho de sangue. Falei que seria um fiasco porque ia espalhar todo mundo, como já havia acontecido outras vezes. Lembrei que estávamos havia quase meses construindo um projeto. Aí já comecei a pensar: bom, eu não vou ficar muito tempo.

A senhora fez algo para evitar que a ação acontecesse?

Eu interpelei. Disse que era um absurdo, que poderia ser um banho de sangue. Eles deixaram claro que já tinham conversado com o governo [do Estado] e que eles não iriam abrir mão. Que eles estavam ali apenas comunicando. Tudo que aconteceu eu previ. Avisei que ia se perder o vínculo, que é a coisa mais preciosa para os agentes de saúde. Falei: vai dispersar todo mundo e não vai ter nenhum resultado. Mas deixaram claro que não tinha volta, “não há nada que a gente possa fazer para que isso não aconteça”.

A sra. falou no vídeo anterior à sua saída que “a besteira já foi feita”. Qual é a besteira?

A ação policial. Quando eu falei com o prefeito, disse: a ação de alguma forma reverberou e ficou a conta para o município pagar. A ação foi malfeita e as reverberações também foram ruins.

O ponto nevrálgico foi derrubar um prédio com gente dentro ou fazer com que parte dele caia em cima de alguém. Você olhar para aquilo e não falar que aquilo foi profundamente errático. E não parar tudo momentaneamente, estabelecer um gabinete de crise, ver o que fazer antes de retomar. Acho que aquilo foi claro. Devia ter sido feito um mea culpa. Mas não foi feito porque não se está parando para pensar no que está sendo feito.

Está se fazendo, de forma automática, porque “tem que fazer”. E não é assim, tem que se fazer um planejamento. A entrada da PM e da Polícia Civil foi um erro. Houve um espalhamento e se prejudicou o cadastro. Já fugiu do controle, já não é mais o Redenção. Está sendo feito tudo de forma açodada.

De quem é a culpa?

Eu credito muito da culpa disso ao governo do Estado. Seguramente. Eles não tinham nada que ter entrado lá. Se o Estado ia entrar, o mínimo que tinham que oferecer era a estrutura. Se eles iam entrar, tinham que ter chamado a prefeitura [e discutido a assistência posterior à ação]. Mas isso tinha que ser uma coisa orquestrada no detalhe, ou seja, não poderia nunca [enfática] ter sido agora. Ou então tinham que ter segurado a onda sozinhos, com o Cratod, com o [programa estadual] Recomeço.

No Redenção a polícia ia entrar em algum momento?

Não. Em nenhum momento era um plano que incluía força policial repressora. Para o tráfico, o secretário municipal de Segurança Urbana estava construindo um plano de controlar as entradas, com revista e monitoramento. Tudo seria de forma gradual, com integração das ações de saúde e de assistência. Mas acho que era angustiante [para o governo] pensar que não é uma coisa instantânea.

Arrepende-se de algo?

Não. Tudo que eu podia fazer eu fiz. Eu fui, me interpus. Quando soube da iniciativa para tentar a internação compulsória, falei com o secretário de Justiça: não faça isso, isso é trazer São Paulo para a Idade Média. Isso não tem justificativa, não é necessário, dá para retomar. A internação compulsória seria mantida [no Redenção] com o critério de risco iminente de morte. Em casos extremos. Só sou a favor em casos de extremo risco, prestes a morrer.

Eu estava reunindo um grupo acadêmico para pensar em formas de mitigar o erro a partir daquele ponto. Propus reuniões com especialistas, ninguém [no governo] aceitou, ninguém quis ouvir. Coloquei todas as ferramentas. Falei: foi horrível, mas estou à disposição para minimizar o erro cometido. Não percebi nenhuma disposição em permitir que a Secretaria de Direitos Humanos participasse disso.

Quando o juiz deu permissão para a internação compulsória e a abordagem às pessoas [decisão depois revogada], vi que estava tomando um rumo com o qual eu discordo diametralmente, e eu ficando lá ia ter colisão. Então não fazia mais nenhum sentido eu permanecer.

Com a situação de hoje, o Redenção pode dar certo?

Acho que vai ter que fazer uma força-tarefa muito grande. Esse problema não tem uma solução pontual. Ele é minimizado através de algumas ações. Agora se tem mais uma variável numa equação que já é extremamente complexa. Eu tentaria espalhar [os dependentes] o menos possível daqui para a frente e ouvir os agentes, porque eles são os que conhecem melhor os usuários. Acho que vai ser complicado. E vai levar um tempo.

O prefeito acompanhava as ações da pasta? Como reagia?

A gente não consegue reagir àquilo que a gente não entende, né? E eu acho que existe uma falta de visão e de convicção a respeito daquilo que é o valor dos direitos humanos. Não vou dizer que seja uma falha só desse governo. Mas existe uma falta de compreensão, de conhecimento. Na verdade, a garantia de direitos para o cidadão deveria ser a espinha dorsal de um governo.

Como seus eleitores receberam seu pedido para sair?

Muito eleitor está pensando que “tem mesmo que haver repressão”, “tem que combater o tráfico”, “traficante tem que apanhar”. Desculpa, não foi traficante que apanhou. Foi usuário. A cracolândia não é questão de polícia, é questão de saúde, social, de péssima distribuição de renda. É de tudo aquilo que a gente não quer falar.

Entrou-se na cracolândia e se dispersou um trabalho de quase cinco meses planejando o Redenção, que seria lindo se tivesse sido levado a cabo. A ação dispersou os usuários e não houve o cadastramento previsto no programa, para se trabalhar com as pessoas de forma individualizada, de acordo com a realidade, a doença, a patologia.

Seria possível fazer esse cadastramento? Funcionaria?

No médio e longo prazo. Quanto [tempo] for necessário. Problema de droga não vai deixar de existir. Se alguém disser isso, é mentira. Se a gente quer diminuir a cracolândia, tem que garantir direito na ponta, com escola decente, saúde de qualidade, medicamento para doente crônico. Senão é sistematização da pobreza. Criticam a Índia porque é uma sociedade discriminatória, que condena os dalits a nascerem e morrerem na pobreza. E nós fazemos o que aqui nesta cidade? Quem mora na periferia, nas comunidades pobres, vai crescer e morrer onde?

O problema que explodiu na cracolândia no dia 21 é que a gente trata pobre viciado de um jeito. Porque se for para tratar do mesmo jeito tem que ir na Vila Madalena, em muitos lugares onde a droga também roda, e também fazer internação compulsória. Só que os drogados cheirosos, os que estão sob controle, eu lido com eles de um jeito. Os que não estão, eu lido de outro.

Quem é esse “eu”?

O poder público como um todo, não só na nossa cidade. O que aconteceu é que de uma forma míope estamos tentando tratar de um problema extremamente complexo, trazer para uma questão policial, que não é. E aí tem outra coisa, que é a especulação imobiliária. Aquele lugar interessa a muita gente. Por isso que direitos humanos não têm a valorização que deveriam ter, porque interferem na lógica do mercado e do capital.

Qual sua opinião sobre a descriminalização das drogas?

[Pausa] É difícil falar. Mas vai precisar fazer uma discussão séria sobre isso também.

Que lições tira disso tudo?

Hoje eu falo que tenho um carinho por ele [Doria], respeito por ele. Sei muito bem que a gente diverge, e sempre coloquei isso para ele. Ele vem da iniciativa privada, ele tem um pensamento político neoliberal e eu sou totalmente contrária a isso. Mas eu divirjo dele com respeito. Ele tem muitas coisas interessantes, brilhantes. De marketing, por exemplo, para divulgar as coisas que ele faz.

Chegou o momento de cada um seguir seu caminho. Eu quero que ele tenha sucesso. Não quero o mal dele. E acredito que ele tenha boas intenções. Acho que falta para ele a experiência real, de saber os tempos, os ritos, de se permitir aceitar que os tempos não são os que ele imagina, lidar com essa frustração.

E precisa acertar nas vozes que ele ouve. A voz que ele ouve não pode ser a da rede social ou daquele que faz a rede social para ele. Mandei um vídeo para ele, com muito respeito, do [filósofo] Mario Sergio Cortella dizendo que “quem gosta de você discorda de você, e quem não gosta bajula você”. Acho que ele está bravo comigo, mas passa.

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