Eleições 2014 – O velho discurso do novo, por Aldo Fornazieri


O velho discurso do novo, por Aldo Fornazieri

Hannah Arendt, em A Condição Humana, nos diz que a ação e o discurso (proferimento de palavras) são os modos pelos quais os seres humanos se manifestam uns aos outros. A relação entre ação e discurso expressa a revelação – quem a pessoa é. Mas, dado o caráter problemático da ação, sendo ela de natureza imprevisível, mais do que ela, o discurso tem mais afinidade com a revelação. Em sendo a ação humana imprevisível, o futuro também vem sempre recoberto de incertezas e imprevisibilidade. A palavra tem o papel de reduzir essa imprevisibilidade não só porque ela é o elemento que estabelece a confiabilidade entre os seres humanos, mas também porque através dela, é possível fazer promessas em relação ao próprio futuro.

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Direto do Blog do Nassif

Neste momento em que as três principais candidaturas à presidência da República estão definidas é importante acompanhar a construção dos discursos que as mesmas promovem, seja através dos próprios candidatos, seja através de seus prepostos – os marqueteiros. Os três candidatos – Dilma, Aécio e Eduardo Campos – estão levando em conta um dado importante da conjuntura para definir seus discursos: o anseio de mudança do eleitorado, que estaria acima de 70% de acordo com as pesquisas. Quando na oposição, o PT fez o discurso da mudança e da renovação da política. No poder, mudou e renovou menos do que se esperava. Recentemente, Lula afirmou que “o dinheiro fez do PT um partido convencional”. Dilma continua pregando a mudança precisando defender a continuidade. Resta ver se dará certo.

A História não imputa a Aécio e Campos o Papel de Reformadores Políticos

Aécio Neves e Eduardo Campos buscam trabalhar o anseio de mudança com a afirmação do conceito em seus respectivos discursos. Assim, convém examinar até que ponto tais discursos podem ou não gerar confiabilidade e revelar efetivamente quem os candidatos são. Antes de tudo, cabe dizer que os dois candidatos, principalmente por serem oposicionistas, têm o direito de empunhar o discurso da mudança. Mas é também um direito que assiste qualquer cidadão submeter os discursos ao crivo do debate público e ao exame de seus conteúdos.

À primeira vista parecem existir dois critérios para medir os graus de confiabilidade e de revelação de quem efetivamente são os dois candidatos. O primeiro critério diz respeito ao exame das histórias da vida pública de Aécio e de Campos para perquirir até que ponto elas os credencia para que cada um se apresente como um reformador, um refundador da política brasileira. O segundo critério manda examinar a coerência discursiva de ambos.

Pelo critério do exame das histórias da vida pública de Aécio e de Campos não há nenhuma razão, por mais esforço que se faça, de conceder credenciais que os qualifiquem como reformadores, inovadores ou refundadores da prática política. Geneticamente, ambos são netos da velha tradição política. Como os dois já têm um longo histórico político, sendo que foram governadores por dois mandados consecutivos em seus estados, o exame de suas práticas e de suas realizações também diz que não é possível reputá-los como reformadores e refundadores. Ocorreram esforços pontuais de melhorias em Minas Gerais e em Pernambuco, mas nada que transforme esses dois estados em uma excepcionalidade exemplar a ser seguida pelo resto do Brasil. Os indicadores sociais, econômicos e de violência em alguns casos são melhores e em outros são piores do que os indicadores de outros estados brasileiros. Tanto no governo de Aécio, quanto no de Campos existem denúncias de corrupção. Seus governos articularam alianças com partidos que também se aliam ao PT. Os governos de ambos abrigaram velhas raposas que raspam o tacho e que agora Campos tanto as critica.

Falta Coerência a Aécio e Campos

Aécio e Campos têm se esmerado em pregar a renovação da política e a exigência de novas práticas na vida pública nesta véspera de campanha. Ambos condenam a “política rasteira”, a “política do ódio” e a “política da baixaria”, imputada ao PT. Mas a veracidade e a fidedignidade desse discurso não ultrapassa o umbral do locam em que se realizaram as convenções do PSDB e do PSB.

Acerca dos xingamentos a Dilma, Aécio os validou em declarações e tentou condená-los no Facebook. Na convenção partidária pregou a extirpação do PT no poder pela força de um tsunami. Ataques à corrupção petista foram disparados com fúria por líderes de um partido que tem um largo histórico de denúncias de corrupção que pesam sobre seus ombros. Para um líder que quer renovar a política, a coerência discursiva exige que ele reconheça que a corrupção é uma prática de todos os partidos, inclusive no seu, e que ela é estrutural o Brasil.

Mais do que isto: na última semana, Aécio pregou, sem pudor ou rubor, o oportunismo político, a traição e a falta de fidelidade. Várias reportagens trouxeram a seguinte declaração do candidato tucano acerca de deserções de governistas em favor da sua candidatura: “Muito mais gente já desembarcou e o governo ainda não percebeu. Vão sugar um pouco mais. E eu digo para eles: façam isso mesmo, suguem mais um pouquinho e depois venham para o nosso lado”. Todo discurso de renovação da política desmorona diante de tal pregação e se tal discurso persistir deve ser entendido como manipulação eleitoral. Ao quebrar a autenticidade de seu discurso, Aécio quebra a possibilidade de que se confira confiabilidade e fé na sua palavra.

No discurso da convenção do PSB, Campos fez a seguinte afirmação: “Os que se revezam no poder no Brasil ao longo desses 20 anos pensam e tentam convencer o povo que agora vão fazer diferente. Mas todos nós sabemos que eles já perderam a energia renovadora, pois se entregaram aos encantos, se deixaram dominar pelo cerco das velhas elites, das práticas mofadas, antigas, ultrapassadas, que já não servem”. Qualquer leitor que saiba que Campos foi duas vezes governador, que ocupou vários cargos públicos, inclusive, que foi ministro do governo Lula, há de ficar perplexo ante tal afirmativa. Campos e muitos dos seus pares também estão se revezando no poder nos últimos 20 anos.

Note-se que na nova política de Campos também cabe validar os xingamentos à Dilma na abertura da Copa. Na convenção do PSB, Marina Silva pregou uma campanha “limpa”, sem “eliminar ninguém”. Os convencionais, as bases militantes do PSB e da Rede Sustentabilidade, que irão elevar a política à santidade da pureza, simplesmente entoaram os seguintes cânticos: “A Dilma no governo o povo não quer mais, xô satanás, xô satanás”. Isto pode ser válido, é um direito, mas não é nova política. O fato é que nem Campos e nem Aécio representam a chamada nova política. Eles fazem parte da política real que está aí, andam junto com sanguessugas, com velhas raposas, com gente que raspa o tacho. A nova política tem pontas soltas aqui e ali, em vários partidos, nos movimentos sociais. Mas enquanto projeto de governo, ela não existe, não está no verbo em nem na carne. O verbo que vem sendo proferido é incoerente e não merece fé. A carne que poderia ser a encarnação da potência de um novo verbo político não nasceu, não é esperança.

Aldo Fornazieri – Cientista Político e Professor da Escola de Sociologia e Política.

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