Crise da água – O Paulistano está com medo da Água do “Volume Morto”


Com medo da Água do Volume morto, paulistano troca torneira por galão

Moradora de Vila Guilherme, na zona norte de São Paulo, a artesã Magda da Silva, 63, aposentou o filtro de barro que usava havia mais de 40 anos. “Tem aquele “volume morto” né? Aquela água que fica no fundo da represa, com cheiro de fossa, diz.

Da Folha se São Paulo

“Antes, lavando o quintal, eu até bebia da torneira. Agora, nem para o meu cachorro eu dou”, diz ela, que gastou R$ 400 em um purificador de água superpotente.

Um mês após o governo Geraldo Alckmin (PSDB) auninciar o uso do chamado “volume morto” do sistema Cantareira para conter o risco de racionamento, é comum a desconfiança sobre a água que sai da torneira – apesar de a SABESP garantir a qualidade.

O “volume morto” é formado pela água que fica no nível mais profundo dos reservatórios. Por estar abaixo da tubulação que capta o líquido, ela precisa ser bombeada para a superfície.

água do Volume morto que sai nas torneiras

Victor Hugo Pereira, 53, mostra água que sai da torneira de sua casa, na Vila Guilherme (Zona norte de São Paulo)

O termo “morto” contribui para a má impressão. Mas a maioria das queixas é ao cheiro de claro e à cor esbranquiçada de água, que começaram antes do uso da reserva.

Na casa do professor Vitor Hugo Pereira, 53, na Vila Guilherme, a água chega branca feito leite. “Começamos a cozinhar com água mineral porque a da torneira dava gosto na comida e azia, chegaram até a vomitar” diz.

A SABESP afirma que a coloração se deve a um fenômeno relacionado ao cloro.

A explicação não convence o comerciante Ademir Bueno, 54. “Estão usando água mineral para tudo. A da SABESP, só para lavar roupa”, conta, mostrando um copo com água marrom recém-tirada da sua torneira.

Na Brasilândia (Zona norte), o telefone dos depósitos de água também tem tocado mais. “Tem gente comprando galões pela primeira vez”, diz Juscelino Santos, 32.

No seu estabelecimento, o galão de 20 litros custa R$ 25 na primeira compra e R$ 9 se o cliente já tem o vasilhame.

O novo hábito afeta o bolso de gente como Ângela da Silva, 44, que trabalha vendendo Yakult em um carrinho no bairro. Para comprar dois galões por semana, ela acaba gastando R$ 70 dos R$ 900 que ganha todo mês.

Alérgica a cloro, a aposentada Eliana Sabó, 64, moradora da Consolação, reclama. “Atacou o meu estômago. Acho que estão aumentando os bactericidas.”

A dona de casa Lucicleide Santos, 28, da Freguesia do Ó (zona norte), proibiu a filho de beber água da torneira. “Ele teve diarréia, ânsia de vômito. Depois que começamos a comprar a água, parou.

 

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2 comentários sobre “Crise da água – O Paulistano está com medo da Água do “Volume Morto”

  1. CRISE DA ÁGUA EM SÃO PAULO NÃO É CULPA DOS DEUSES DA CHUVA

    “Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
    Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva”
    (Sampa, de Caetano Veloso)

    Quando alguém disser que a falta de água em São Paulo é culpa dos deuses da chuva, desconfie. Esta escassez, na verdade, é culpa exclusiva dos homens.

    O Governo do Estado de SP deveria ter investido, ao longo destes últimos 12 anos, na ampliação da estrutura de captação da SABESP, para acompanhar o ritmo de crescimento urbano das cidades atendidas pelo sistema. Mas o governo não fez isso. Preferiu ensaiar um discurso de privatização da companhia, deixando de realizar investimentos e, assim, criar artificialmente uma justificativa de ineficiência falsa da empresa, abrindo espaço ao argumento de que a iniciativa privada poderia desempenhar melhor este serviço essencial à população. Este receituário foi aplicado nos dois governos privatizadores de FHC, quando várias companhias e empresas públicas foram induzidas artificialmente a uma situação perdulária e de ineficiência, dando combustível à justificativa oficial de que deveriam ser privatizadas. Todavia, com abastecimento público de água a coisa é bem diferente. Quando foram ouvidas reações fortes à proposta de privatização da SABESP, o governo reduziu o discurso em torno de sua privatização. Mas manteve a empresa sem realizar os investimentos necessários na ampliação da malha de captação dos sistemas que abastecem o Estado.

    Faz parte da estratégia eleitoral do PSDB negar a realidade do Brasil de hoje. Negam eles que o Brasil está crescendo, que 70 milhões de brasileiros estão tendo acesso a serviços públicos básicos como a moradia, o saneamento, a energia elétrica, a água, o emprego e a renda.

    Ora, se o sistema de captação da água de São Paulo permaneceu o mesmo, sem melhorias, sem ampliações, enquanto houve um crescimento enorme da malha urbana que deve ser abastecida com água tratada, até um anão de jardim sabe que, em algum ponto, em algum momento, a estrutura irá apresentar inconsistência. É como você estivar um elástico além de sua capacidade. Sabe que, em algum momento, ele irá arrebentar. Foi o que ocorreu no sistema Cantareira. A partir de 2011, 2012, chegou-se a um ponto, em que o abastecimento passou a ser realizado nas bordas do limite do reservatório. E mais água saindo do que entrando leva a uma situação de baixa gradativa no nível da água. Matemática pura e simples.

    Para ocorrer um desastre de abastecimento, bastava uma estiagem mais prolongada no Estado. E foi o que ocorreu desde fins de 2013 , colocando o reservatório abaixo do nível crítico. Diante desta situação crítica, a opção pelo uso da “reserva morta” foi uma decisão de fundo político. Não foi uma decisão administrativa, nem cautelosa, nem inteligente, sob o ponto-de-vista estratégico de quem tenha preocupação efetiva com a população. Foi opção grandemente temerária do governo de Alckmin, que buscou, acima de tudo, preservar-se de críticas, poupar-se de desgastes, ainda mais em ano eleitoral.

    O tamanho da irresponsabilidade do governo paulista é maior do que o vazio do sistema Cantareira. O resultado está aí: São Paulo, o Estado mais rico da Federação, vive hoje à beira de um desastre de proporções colossais, que é o de uma parte expressiva de sua população ficar sem agua nenhuma nas torneiras por um longo período. Soma de duas inconseqüências gerenciais gigantescas, uma de longo prazo e outra de curto: negar a realidade de que o Brasil está em expansão econômica e não investir na ampliação do sistema de captação de água (erro de longo prazo) e optar por utilizar agora toda a reserva de água disponível (a reserva morta), sem realizar campanha alguma de racionamento e de economia de consumo de água (erro de curto prazo).

    O irônico disso tudo é que, extraoficialmente, largas fatias da população paulista já enfrentam um racionamento forçado de água, num programa de cortes não escalonado, não anunciado e não planejado. Bairros inteiros de cidades paulistas ficam, por vezes, vários dias sem um pingo d’água em suas torneiras. Mas os governantes paulistas dizem que “está tudo bem, tudo sob controle”.

    O certo é que o governo paulista que impediu a SABESP de realizar os investimentos necessários para a melhoria do sistema de abastecimento deveria ter adotado, desde fins de 2013, uma política de racionamento e de economia de água junto às populações mais vulneráveis à falta de água. Era a forma mais racional de administrar a baixa reserva ainda existente no Sistema Cantareira. Assim, poderia adiar a opção extrema de usar, desde logo, a “reserva morta”, deixando-a somente para último caso, na hipótese de um prolongamento da estiagem. Porém, de olho nas eleições de outubro, o governo tucano paulista mandou às favas a cautela. Preocupado em evitar o desgaste político de um racionamento oficial e de uma política de economia de uso de água, o governo Alckmin decidiu bombear, há um mês, toda a água da “reserva morta” para dentro do reservatório esvaziado do sistema Cantareira. Uma água parada, perigosa, contendo grande quantidade de metais pesados e substâncias tóxicas, repleta ainda de bactérias nocivas à saúde. Esta água está recebendo altas dosagens de cloro e enviada à população paulista pelos seus diletos governantes.

    Ou seja: o governo Alckmin não fez o dever de casa, impedindo a SABESP de realizar os investimentos na ampliação do sistema. Na visão deles, o Brasil não está crescendo e a população paulista não está exigindo uma maior quantidade de água tratada. Assim, apanhado de cuecas pela realidade, o mesmo governo tucano utilizou agora toda a reserva estratégica de água que estava disponível, apostando todas as fichas nos deuses da chuva! Todavia, se estas chuvas não retornarem ou se ocorrerem em volume abaixo do esperado, a água morta será toda consumida e uma parte significativa do Estado de São Paulo pode ficar sem água nenhuma nas torneiras, por um longo período, pois não há mais reserva alguma de de contingência. Assim, sem água viva nem morta, assistiremos a uma situação de calamidade pública sem precedentes no Estado de São Paulo.

    Este é o quadro-da-dor criado pela seqüência temerária e ruinosa de decisões da gestão governamental paulista, fiel à cartilha baseada em dois pontos: a privatização, como política do Estado mínimo, e o calendário eleitoral, como política de auto-preservação no poder. Um modelo ruinoso e perigoso de gestão que os paulistas até aqui mantiveram no Palácio Bandeirantes e que agora lhes cobra esta fatura impagável que é o desabastecimento de água.

    Assim, se o povo paulista se ressente hoje da péssima qualidade da água morta que lhe está sendo enviada pela SABESP, saiba que paira no ar uma ameaça ainda bem mais séria e mais grave, que é a de de não haver água nenhuma saindo de suas torneiras, por um bom período.

    Culpa da absoluta incapacidade gerencial e administrativa do governo de São Paulo para atender a população nesta necessidade básica e rigorosamente essencial. Assim, se uma boa parte do Estado de São Paulo ficar igualzinho ao Nordeste brasileiro de algum tempo atrás, sem água, com parte do povo vivendo na total secura, por favor, “incluam” os deuses da chuva fora dessa!

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