Preconceito contra Bolsa Família é fruto da imensa cultura do desprezo”, diz pesquisadora


Programas Sociais – Bolsa Família

Preconceito contra Bolsa Família é fruto da imensa cultura do desprezo

Com Isadora Peron

22.outubro.2013 20:00:45

O Programa Bolsa Família fez 10 anos no domingo, dia 20. Quando foi lançado, no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, atendia 3,6 milhões de famílias, com cerca de R$ 74 mensais, em média. Hoje se estende a 13,8 milhões de famílias e o valor médio do benefício é de R$ 152. No conjunto, beneficia cerca de 50 milhões de brasileiros e é considerado barato por especialistas: custa menos de 0,5% do PIB.

Para avaliar os impactos desse programa a socióloga Walquiria Leão Rego e o filósofo italiano Alessandro Pinzani realizaram um exaustivo trabalho de pesquisa, que se estendeu de 2006 a 2011. Ouviram mais de 150 mulheres beneficiadas pelo programa, localizadas em lugares remotos e frequentemente esquecidos, como o Vale do Jequitinhonha, no interior de Minas.

O resultado da pesquisa está no livro Vozes do Bolsa Família, lançado há pouco. Segundo as conclusões de seus autores, o incômodo e as manifestações contrárias que o programa desperta em alguns setores não têm razões objetivas. Seria resultado do preconceito e de uma cultura de desprezo pelos mais pobres.

Os pesquisadores também rebatem a ideia de que o benefício acomoda as pessoas. “O ser humano é desejante. Eles querem mais da vida como qualquer pessoa”, diz Walquiria, que é professora de Teoria da Cidadania na Unicamp.

Na entrevista abaixo – concedida à repórter Isadora Peron – ela fala desta e de outras conclusões do trabalho.

Como surgiu a ideia da pesquisa?

Quando vimos a dimensão que o programa estava tomando, atendendo milhões de famílias, percebemos que teria impacto na sociedade. Nosso objetivo foi avaliar esse impacto. Uma vez que o programa determina que a titularidade do benefício cabe às mulheres, era preciso conhecê-las. Então resolvemos ouvir mulheres muito pobres, que continuam muito pobres, em regiões tradicionalmente desassistidas pelo Estado, como o Vale do Jequitinhonha, o interior do Maranhão, do Piauí…

socióloga Walquiria Leão Rego

E quais foram os impactos que perceberam?

Toda a sociologia do dinheiro mostra que sempre houve muita resistência, inclusive das associações de caridade, em dar dinheiro aos pobres. É mais ou menos aquele discurso: “Eles não sabem gastar, vão comprar bobagem.” Então é melhor que nós, os esclarecidos, façamos uma cesta básica, onde vamos colocar a quantidade certa de proteínas, de carboidratos… Essa resistência em dar dinheiro ao pobres acontecia porque as autoridades intuíam que o dinheiro proporcionaria uma experiência de maior liberdade pessoal. Nós pudemos constatar na prática, a partir das falas das mulheres. Uma ou duas delas até usaram a palavra liberdade. “Eu acho que o Bolsa Família me deu mais liberdade”, disseram. E isso é tão óbvio. Quando você dá uma cesta básica, ou um vale, como gostavam de fazer as instituições de caridade do século 19, você está determinando o que as pessoas vão comer. Não dá chance de pessoas experimentarem coisas. Nenhuma autonomia.

Está dizendo que essas pessoas ganharam liberdade?

Estamos tratando de pessoas muito pobres, muito destituídas, secularmente abandonadas pelo Estado. Quando falamos em mais autonomia, liberdade, independência, estamos nos referindo à situação anterior delas, que era de passar fome. O que significa dizer de uma pessoa que está na linha extrema de pobreza e que continua pobre ganhou mais liberdade? Significa que ganhou espaços maiores de liberdade ao receber o benefício em dinheiro. É muito forte dizer que ganhou independência financeira. Independência financeira temos nós – e olhe lá.

O que essa liberdade significou na prática, no cotidiano das pessoas?

Proporcionou a possibilidade de escolher. Essa gente não conhecia essa experiência. Escolher é um dos fundamentos de qualquer sociedade democrática. Que escolhas elas fazem? Elas descobriram, por exemplo, que podem substituir arroz por macarrão. No Nordeste, em 2006 e 2007, estava na moda o macarrão de pacote. Antes, havia macarrão vendido avulso. O empacotamento dava um outro caráter para o macarrão. Mais valor. Elas puderam experimentar outros sabores, descobriram a salsicha, o iogurte. E aprenderam a fazer cálculos. Uma delas me disse: “Ixe, no começo, gastei tudo na primeira semana”. Depois aprendeu que não podia gastar tudo de uma vez.

A que atribui a resistência de determinados setores da sociedade ao pagamento do benefício?

O Bolsa Família é um programa barato, mas como incomoda a classe média (ela ri). Esse incômodo vem do preconceito.

Fala-se que acomoda os pobres.

Como acomoda? O ser humano é desejante. Eles querem mais da vida, como qualquer pessoa. Quem diz isso falsifica a história. Não há acomodação alguma. Os maridos dessas mulheres normalmente estavam desempregados. Ao perguntar a um deles quando tinha sido a última vez que tinha trabalhado, ele respondeu: “Faz uns dois meses, eu colhi feijão”. Perguntei quanto ele ganhava colhendo feijão. Disse que dependia, que às vezes ganhava 20, 15, 10 reais. Fizemos as contas e vimos que ganhava menos num mês do que o Bolsa Família pagava. Por que ele tem que se sujeitar a isso, praticamente à semiescravidão? Esses estereótipos tem que ser desfeitos no Brasil, para que se tenha uma sociedade mais solidária, mais democrática. É preciso desfazer essa imensa cultura do desprezo.

No livro a senhora diz que essas mulheres veem o benefício como um favor do governo.

Sim, de 70% a 80% ainda veem o Bolsa Família como um favor. Encontramos poucas mulheres que achavam que é um direito. Isso se explica porque temos uma jovem democracia. A cultura dos direitos chegou muito tarde ao Brasil. Imagino que daqui para a frente a ideia de que elas têm direito vai ser mais reforçada. Para isso precisamos, porém, de políticas públicas específicas. Seriam um segundo, um terceiro passo… Os desafios a partir de agora são muito grandes.

socióloga Walquiria Leão Rego2

Qual é a sua avaliação geral do programa?

Acho que o Bolsa Família foi uma das coisas mais importantes que aconteceram no Brasil nos últimos anos. Tornou visíveis cerca de 50 milhões de pessoas, tornou-os mais cidadãos. Essa talvez seja a maior conquista.

Entre as mulheres que ouviu, alguma foi mais marcante para a senhora?

Uma das mais marcantes foi uma jovem no sertão do Piauí. Ela me disse: “Essa foi a primeira vez que a minha pessoa foi enxergada”. Tinha uma outra, do Vale do Jequitinhonha, que morava num casebre, sozinha com três filhos. Quando começou a contar a história dela, perguntei qual era a sua idade, porque parecia que já tinha vivido muita coisa. Ela respondeu: “29 anos”. E eu: “Mas só 29?” Ela: “Mas, dona, a minha vida é comprida, muito comprida.” Percebi que falar que “a minha vida é muito comprida” é quase sinônimo de “é muito sofrida”.

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3 comentários sobre “Preconceito contra Bolsa Família é fruto da imensa cultura do desprezo”, diz pesquisadora

  1. Me indigno quando vejo que ainda há pessoas falando contra projetos como: “Bolsa Família”, “Ciência sem Fronteiras”, “Mais Médicos” a pesar de todos os argumentos contra já serem mais do que batidos e todos os pontos de vistas contra são inteiramente não coletivos levando em conta somente o lado financeiro de cada um.
    Eu fico indignado quando vejo que pessoas que estudaram, e não são ricas, falando besteiras como uma que li: “Ah… esse aí ta falando porque deve viver bem de bolsa família” ou “bilhões de reais são gastos com o bolsa família, podendo ser investidos em geração de empregos”. “podendo ter emprego o governo fica sustentar vagabundo”, “Política de assistencialismo não leva à nada”, “bolsa escola só é pra sustentar vagabundo e não muda nada a situação do País” “etc”
    Antes de qualquer coisa. Essa ideia, seja quem a originou ou copiou, é fantástica! E eu falo como um dos que pagam 27,5% de imposto de renda atualmente, para que pelo menos um parte desse dinheiro chegue a esses destinos!
    Agora começo pergunto primeiro para os milhões de pais que trabalham e dedicam o seu dinheiro mantendo os filhos só em casa não querendo que eles comecem a trabalhar desde cedo porque preferem que eles se dediquem somente aos estudos (fazendo cursinho, curso de inglês, curso profissionalizante, esportes) porque entendem que somente com uma dedicação integral é que esses filhos podem ter a chance de competir e atingir grandes resultados, tendo a possibilidade no final desta jornada, conseguir um excelente emprego. Pergunto a eles: O que vocês diriam se alguém anunciasse que iria patrocinar esses estudos? (como acontece nos EUA para os estudantes que têm algum talento) porém aqui seria diferente, seria para todos os estudantes, independente de ter algum talento ou não, seria para quem queira se dedicar de tempo integral a essas atividades? Pergunto a vocês, vocês rejeitariam? Contudo esse dinheiro iria ser automaticamente descontado dos seus salários, mas não somente do salário dos pais de alguns jovens e sim de todos que trabalham, tendo filhos ou não!
    Sabe qual é o problema pessoal é que muita gente diria não, pois diria: “como assim vai descontado dinheiro do meu salário pra ajudar filho dos outros”, “vocês estão malucos, eu lá quero sustentar vagabundo”, “eu estou pouco me lixando se isso vai ser bom para ajudar o País a ser menos desigual” “Como eu vou saber que esse dinheiro não ta sendo roubado e ainda mais que esse pessoal nem vai pra escola”.

    Pois é pessoal, é assim que as famílias que estão adquirindo esses benefícios estão sendo vistas! Vistas como vagabundos ou que não querem trabalhar! E sabe como elas veem esses projetos, como uma chance do filho e/ou de elas mesmas conseguirem algo melhor no presente e no futuro!

    E o que me deixa mais aborrecido no final é que há pessoas que vieram de baixo, cresceram através de uma luta diária e ainda sim concordam com os falsos ricos da classe média que no final de semana vão (naquele velho domingo) dar sopa com pão paras os mendigos na porta de igreja e diz: “bolsa família é política de assistencialismo, o certo era gerar emprego pra esse gente”. Eu fico indignado com isso porque na verdade o quê essas pessoas querem é continuar com a sua posição social, carro novo, emprego importante, e o resto vá que se dana! Pois quem pensa dessa maneira meus amigos, não está preocupado se o emprego que você vai ter é de gari, zelador, pião de obras, ajudante, lavador de carros, pião de fábrica. Para esse tipo de pessoa o que importa é que você tenha um emprego de baixa renda e pouca representatividade e continue bajulando os “bens educados”, “viajados”, os “patrões”, que desfrutam da vida enquanto um monte fica no trabalho ferrado diário.

    Então, se me dizem que vão taxar o meu salário, retirar dinheiro do meu bolso e de todos que recebem um bom salário para tirar pessoas da miséria, exigir que os filhos participem (frequente) mais das atividades escolares, que as crianças, os adolescentes devem se dedicar mais aos estudos. Eu concordo na hora!
    Porque eu sei (e eu sei mesmo!) que só com a barriga cheia e com condições mínimas dá para estudar, se dedicar, e tentar conseguir essas oportunidades que parecem ou pareciam ser impossíveis!

    Agora qual é o meu (o nosso!) dever meus amigos? Se eu vejo que tem adolescente roubando, matando, se vejo que as escolas são bem adequadas, que o ensino não é de qualidade, que muito dinheiro é desviados, que não tem emprego de qualidade, a saúde continua um caos. Qual o meu dever?

    Eu acredito que é exigir e brigar por melhorias, não permitir que as nossas prefeituras continuem desviando o dinheiro que vem todos os meses para esses setores, procurar e brigar para que o dinheiro seja aplicado na compra dos medicamentos básicos que faltam nos hospitais, que o atendimento melhore, que os médicos não continuem trabalhando em condições precárias.

    Acredito pessoal que eu devo fazer isso, ao repudiar projetos como o: “bolsa família”, “ciência sem fronteiras” ou “mais médicos”. Porque quem repudia ideias como essas não quer o desenvolvimento do País, nem pra hoje e muito menos para o futuro. Quem repudia esses projetos querem viver no País dos vira-latas onde nada no Brasil prestas e os “bons” e “bens educados” da classe média desfrutem continuem desfrutando de Paris, Barcelona, Londres, Dubai,…

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    • Ouvi no Programa Navegador, que a Bolsa Família é o direito ao retorno daquele mínimo de impostos de seu consumo. É direito universal do homem. Na Europa a Bolsa Família é de + ou – 700 Euros ano. Sei que a classe econômica média não suporta a entrada da classe C e D em seu meio, shopping, viagens de avião e passeios pelos Resorts hoteis pelo Brasil e pelo mundo, estar ao lado, mesmo na Terra Santa e ilhas gregas.

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