“Esquerda-Caviar”. A antropóloga Rosana Pinheiro fala sobre a expressão.


Sobre a esquerda-caviar e outras alucinações

Direto do Blog da Rosana Pinheiro

Esquerda caviar

Imagem ilustrativa sugerida pelo Meu Blog de Política

“Esquerda-caviar” (*) é nova expressão inventada por gurus da direita conservadora e reacionária. E como muitas expressões levianas, elas se espalham por meio de um bando de seguidores, os quais, sem saber exatamente o que isso significa, reproduzem uma ideia falaciosa: a de que a esquerda tem que ser paupérrima. Mas só para começar a nossa discussão, é bom lembrar que a pobreza é uma invenção do capitalismo.

Eu nunca fui chamada de esquerda-caviar publicamente, mas é apenas uma questão de tempo. Afinal, eu faço coisas terríveis que contradizem minha convicção política socialista, a qual foi apreendida desde a primeira infância quando eu lia O Capital em quadrinhos, Pablo Neruda, Che Guevara. Nesses livros escritos por uma corja de gente que não toma banho, eu nunca aprendi que eu não poderia consumir. Eu apenas aprendi que havia algo errado no mundo: alguns têm muito e outros – a grande maioria – têm muito pouco. Os que têm pouco não possuem instrumentos para reverter esse quadro porque historicamente foram roubados por quem tem muito. Assim, eu, uma pessoa de classe média, tornei-me socialista. Ou quiçá, uma integrante da esquerda caviar.

Na primeira versão deste texto que aqui apresento, este exato paragrafo iniciava-se com uma série de mea-culpa sobre meu background familiar e até meus atos de consumo do dia-a-dia. Também pensei em explicar porque um conhecido meu comunista tem uma caminhonete. Ele tem sido acusado nas redes sociais de esquerda-caviar por ter um adesivo de Che em um carro dos sonhos da direita. Quanta contradição! Comunistas deveriam andar a cavalo! Ainda eu poderia responder a Rodrigo Constantino, que teve a infelicidade de dizer que a deputada Manuela Dávila, uma vez dita comunista, não poderia optar por ser feliz em sua vida conjugal, já que isso significava uma vida liberal burguesa.

Apesar de escrever coisas que configuram uma ignorância tremenda – como no caso da deputada – o guru da Veja, Rodrigo Constantino, não é nada ignorante. Ele certamente sabe que a esquerda pode se casar e ser feliz. Ele é apenas da extrema direita e tem um papel messiânico de espalhar medo e desinformação sobre a esquerda.  (Permita-me, por favor, abrir um parêntese: como é interessante usar a expressão ‘messiânico’ para se referir a alguém da direita – esta palavra tão usada para classificar a nós, da esquerda radical e que-deveria-ser-fedorenta). Ainda pior que esse sujeito que intencionalmente joga claro sua posição politica, são aqueles que, sem qualquer conhecimento do que é o socialismo, saem reproduzindo essa falácia nas redes sociais.

A ideia de uma esquerda-caviar é uma falácia. Um argumento que parece lógico e coerente (comunista = pobre), mas que esconde uma profunda enganação. Por isso, qualquer justificativa seria cair nessa rede de ignorância profunda na qual essas pessoas estão enredadas.

Como justificar que o capitalismo é melhor se um socialista também tem pequenos prazeres materiais e simbólicos? Se essa pessoa foi educada que, no socialismo, as pessoas compartilham escovas de dente, como aceitar e justificar que um sujeito da ideologia perigosa tem um carro melhor que o meu? Se o cara tem um carrão, porque ele não fica feliz de ele ser o 1% da população mundial? Para que complicar as coisas e ainda querer mais igualdade? Isso realmente fica fora da cartilha da extrema direita. O mais fácil mesmo é desqualificar os socialistas, como sujeitos contraditórios.

Sinto muito. A esquerda consome e também goza de pequenos prazeres das coisas materiais. Mas existe uma grande diferença entre isso e o acúmulo de propriedade privada. Essa diferença é ética: a não ostentação, o não excesso e a consciência da origem dos produtos e das questões injustas de propriedade intelectual. Difícil definir o limite dessa ética? Sim, muito difícil, ainda que a própria acepção filosófica da palavra ética já resolva essa dificuldade.

Tempos atrás eu vi algo no Facebook que dizia “socialismo não é ser contra i-phone, mas a favor de que todos tenham um i-phone”. Eu discordo. Um produto de uma empresa que explora o trabalho escravo, entre outros problemas, não é o melhor exemplo do que significa socialismo. Mas a ideia que está por trás dessa frase está correta. Socialismo é uma sociedade democrática e mais igualitária em que todos possam ter as mesmas condições de partida. E nessa sociedade as pessoas compram o que quiserem – até mesmo um i-phone, se for o caso. Socialismo é a luta pela participação política de todos os sujeitos na sociedade e contra o monopólio das grandes corporações.

Desculpa-me, direita, mas em minhas três décadas de leituras socialistas, eu nunca encontrei aquela parte do caviar. Nunca ninguém escreveu que as pessoas devem ser sujas, não casar e fazer voto de pobreza. Mas na esquerda, as pessoas podem ser sujas, limpas, gordas, magras, homossexuais, heterossexuais. Elas podem gostar de carro ou de livros; de viagens ou de cafeterias. Em suma, elas podem ser livres.

Desculpa-me, direita, por me apropriar dessa palavra que vocês adoram na teoria, mas na prática tem se demonstrado bem mais complicado do que parece. Para a direita, a expressão liberdade tem sido usada apenas para o mercado e seus impostos. Afinal, de resto vejo uma grande prisão a valores conservadores e padrões intangíveis que causam sofrimento e violência de todas as ordens.

A ideia socialista de igualdade e liberdade é ameaçadora porque fere a distinção social brasileira, fonte de grande prazer de poucos. Mas os tempos estão mudando. E todos nós agora queremos caviar. E mais: entendemos que a ausência de caviar é apenas uma questão política e não de mérito.

Nesse contexto ameaçador, é preciso requentar a mitologia anti-comunista, reproduzida sem qualquer conexão com a realidade. Comer criancinha não cola mais. Colava durante a ditadura militar, quando jovens “fanáticos” davam a sua vida pela liberdade. Aquelas meninos barbudos e meninas de sandália hippie tinham apelo social. Mas perderam seu apelo após a hegemonia do american way of life dos anos 1990. Os barbudos se transforam num ícone da derrota e do passado para a direita bem enfeitada das colunas sociais. Mas as coisas mudaram, pois os padrões hegemônicos tem se mostrado um modelo falho, raso e insustentável.

O ano de 2013 se mostrou um marco de indignações e revoltas. 2014 promete muito mais. Portanto, como em 1964, é preciso desesperadamente recriar mitos para proteger o castelo. Enquanto milhões de pessoas irão para as ruas no ano da “Copa para todos” (heim?), só resta à direita torcer para que um comuna tome champanhe e poste no facebook.

Ah, para finalizar, (1) eu nunca comi caviar, mas adoraria. (2) que ironia do destino ter uma esquerda caviar e uma direita coxinha.

(*) Apropriado do francês – Gauche Caviar

Clique na imagem para ir até o Blog da Antropóloga Rosana Pinheiro e leia outros artigos.

Rosana Pinheiro

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7 comentários sobre ““Esquerda-Caviar”. A antropóloga Rosana Pinheiro fala sobre a expressão.

  1. Apesar de ser de extrema direita e não ser conservador e nem reacionário como o seu arquétipo criada para minha pessoa. Tenho orgulho de nunca ter chamado ninguém de esquerda-caviar. Primeiro porque acho que isso não é argumento mesmo, infelizmente, é o que algumas pessoas entendem, acho que vc foi perfeita na sua análise neste sentido. É o mesmo argumento de quem me chama de coxinha, eu até agora não entendi o significado, mas já adotei para não haver discussão. Paragrafo introdutórios de comentários avulsos.

    Você não esclareceu no seu texto porque acha que o capitalismo inventou a pobreza. Se puder me elucidar eu adoraria.

    “E mais: entendemos que a ausência de caviar é apenas uma questão política e não de mérito”. Não é de política nem de mérito, pelo menos por enquanto. A capacidade de produção mundial de caviar não supri a demanda por 7 bilhões de pessoas. Numa economia de preços livres, os que estiverem e condição e dispostos a pagarem enormes quantidades de dinheiro por um minúsculo pote comerão, os que não estiverem não. É uma questão econômica. É só um comentário avulso. Só gostaria de entender porque vc acha que o capitalismo criou a pobreza. No meu conceito ela existe há 200.000 anos.

    ótimo texto, tbm odeia esses esteriótipos que não levam a discussão a lugar algum.

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    • Meu caro André Reaça Santiago (você quem se identificou assim), sou apenas um visitante, de passagem, e, primeiro, não se cria um arquétipo, para uma pessoa. O seu ato falho foi bem interessante. Bom, não sou sociólogo, não sou historiador, nem similar, mas só de lembrar do que estudei destes assuntos, apesar da minha pouca educação brasileira que não foi devidamente estimulada porque o Brasil prefere investir nas empresas, e nas derivadas oligarquias há muito tempo instauradas por outros oligacas, mais do que na educação, lembro-me de bons motivos para situar como possivelmente o capitalismo tenha criado a pobreza, não intencionalmente criado, mas consequentemente. Só a partir de meados de 1500, pra você lembrar de algo além da conta no banco. Grandes descobrimentos! Que piada, quem descobriu o quê? Os nobres descobriram mais locais de dominação, assim como hoje descobrem lugares para vender mais, usar mão-de-obra barata, e não retornar nada a comunidade local. Lembra daquela história da transição do feudalismo que levou a quebra das relações tradicionais de servidão, onde não haviam pobres, mas servos? E a exploração do trabalho na revolução industrial? Gerou revoltas, doenças, pestes em consequência de condições insalubres e outros, outros outros. Colonização, escravidão, diáspora, destruição de laços tradicionais de relações inter-tribais na África, desmembramento do território e remapeamento segundo interesses econômicos europeus ainda mantidos até os dias de hoje, os quais são mantidos por ditaduras fortemente armadas. Ocidentalização do mundo, enfraquecimento das comunidades tradicionais, marginalização e consequente pobreza? Falta de investimento em educação. ponto.
      O capitalismo “cria” a pobreza na medida em que estimula a competitividade e individualidade, somados a supérfluos consumos, como por exemplo o de caviar, que não é um problema politico, ou de mérito, ou de suprir uma demanda de caviar para 7 bilhões de pessoas (RISOS). E sim um problema ambiental, nutricional e principalmente, de desperdício conspícuo, as ovas selvagens de esturjão!!! São caras porque são raras, difíceis e são tradicionalmente vinculadas a quem pode pagar 8000£/kilo, e quer tirar onda, um com os outros. Capitalismo e os sistemas políticos são faces da mesma moeda, pode ser o que for, não importe suas intenções, serás a marionete de grandes grupos. Grandes grupos não, pequenos grupos que detêm muito dinheiro. Não sou esquerda, não sou direita, não sou meio. Não sou a fim de dominar nada ou ninguém.
      Eu sou a favor do fim do dinheiro, fim dos produtos nocivos a saúde e a natureza, fim do uso das energias poluidoras, fim dos carros movidos a combustíveis fósseis, fim de todos os supérfluos, fim da mídia marketing e inicio de uma era planetária de racionalização dos recursos, tecnologias e conhecimentos, ciência transdisciplinar, comunhão das tecnologias, intercambio do conhecimento, cidade planejadas para qualidade de vida e uso sustentável de recursos, aproveitamento da água, abuso do carinho ao meio ambiente e aos seres humanos, a todos sem distinção de raça, local, etc. Sem necessidade de “direitos humanos”, porque haveria consciência encarnada de que o mundo é um, somos todos a mesma organização de um tipo de ser vivo deste planeta, que é uma poeira no cosmo. Somos uma utopia desvairada, não em relação a estes ideais que balbuciei, somos utopistas enquanto escrotos “consumidores de carne humana”. Pra mim a utopia é acreditar na política liberal, no mercado de supérfluos e nas ditaduras da guerra/opressão. Um dia nossa humanidade vai rir disso tudo, talvez sejamos nomeados como da era do caos pré-renascença, e ainda esteja por vir a renascença, a não-utopia do dinheiro.

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  2. Vc pode por favor me explicar como pretende fazer as pessoas terem bens como carros e smartphones sem ‘grandes corporacoes’?!!!! ahahaa..nao sei se vc sabe mas nao da pra fabricar algo complexo como um micro processador no quinttal de casa..e sem microprocessador nao tem iphone..da mesma forma pra comecar a brincadeira numa montadora por baixo devem ser produzido milhares de automoveis , se nao ha prejuizo por faltta de escala de producao..so many idiots in this world, i love it

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  3. Vou repetir um dialogo que tive muito interessante sobre liberdade no socialismo:Perguntei a um socialista se no socialismo você poderia ser capitalista livremente,a resposta foi não,e no sistema capitalista você pode expressar sua concepção politica,ele disse que sim,acabou nossa discussão sobre liberdade.

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  4. Capitalismo cria a pobreza e socialismo premia o incompetente.
    Nós não somos iguais. E não devemos adotar um padrão que nos force a ser.

    Não esquecer que o capitalismo é resultado de vivências reais, enquanto o socialismo só foi possível graças ao capitalismo. Afinal, o desocupado que criou essa filosofia teve que comer e consumir recursos enquanto escrevia seus devaneios.

    Eu só gostaria de um, apenas um, exemplo de país socialista bem desenvolvido e com boa qualidade de vida.

    O pessoal já começou a nadar de Miami em direção a Cuba?

    Em épocas de crises econômicas a turminha de vermelho sempre bota as manguinhas de fora. No próximo ciclo de crescimento econômico o monstro de garras afiadas, o capitalismo, sai da caverna e bota todo mundo pra correr atrás do seu Iphone.

    E duvido, mas duvido muito, que o autor do artigo não tenha um produto da Apple ou da Samsung em casa. Caso tenha, parabéns por incentivar a escravidão.

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  5. Estamos é perdendo tempo com estas discussões vazias e cheias de ódio… Enquanto os da direita dizem que os socialistas são isso e aquilo, os da esquerda dizem que os reacionários são isso ou aquilo outro. Na verdade, nada importa a não ser a liberdade de expressão, igualdade nos direitos e respeito pelos deveres. Que o governo cumpra o seu papel de protetor, como está na carta magna. Que todos tenham oportunidade de trabalhar, ter educação, saúde, segurança. Importa se é direita reacionária ou se é esquerda caviar? Juntemo-nos em uma única direção, com consciência e força de espírito, e veremos que o melhor sistema é aquele que se preocupa com o seu povo… Cuba ou Estados Unidos? Não importa…

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  6. A afirmativa do capitalismo ter “criado” a pobreza é extremamente subjetiva e falaciosa.

    Se considerarmos como marco do início do capitalismo moderno a Revolução Industrial, todas as estatísticas relacionadas ao bem-estar das populações impactadas, como expectativa de vida, mortalidade infantil, altura média e quantidade de nutrientes na dieta básica, aumentaram ao longo do tempo.

    Além disso, as melhorias decorrentes da evolução da urbanização, das comunicações, transportes e produtividade permitiram que a maioria das pessoas tivesse acesso a uma grande variedade de bens de consumo antes inimaginável.

    Por fim, uma das maiores “inovações” do capital foi a sua determinação como fator-chave de ascensão social, independente de clã familiar. A sociedade deixou de ser dividida entre plebe e nobreza e a posição social passou a ser determinada pela quantidade de riqueza gerada/acumulada pela pessoa com base em seus próprios méritos. Não que este seja um mundo perfeito, porém é melhor do que sua posição social ser determinada pelo berço em que nasceu.

    Portanto, os fatos históricos comprovam que em termos ABSOLUTOS, a vida das pessoas melhorou, tanto em termos de qualidade de vida, quanto em termos de posse de bens materiais e de flexibilidade social com o advento do capitalismo moderno, mesmo que em termos RELATIVOS a concentração de renda tenha aumentado.

    Por fim, resta a pergunta: Houve na história alguma experiência socialista de sucesso?

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